Startup cria polêmica bebida plant based, que promete substituir uma refeição completa

Gazeta do Povo | 23 de fevereiro de 2021

O crescente mercado de produtos plant-based, aqueles feitos a partir de vegetais para substituir a proteína animal, aos poucos está ganhando novos players e novos adeptos, mas gerando controvérsias entre especialistas.

 

Embora ainda haja muito espaço para crescer visto as fortes investidas de grandes e médias companhias alimentícias do Brasil e do mundo como Unilever, Nestlé, NotCo e Caldo Bom, os produtos feitos à base de plantas passam por grandes processos de industrialização para ganharem aparência e sabor semelhantes aos de origem animal.

 

Depois de soluções como leite, hambúrgueres, almôndegas e outros produtos, a mais recente investida é em uma bebida de origem totalmente vegetal que promete substituir uma refeição completa. Inspirado no composto nutritivo Soylent, criado em 2013 por um engenheiro de softwares do Vale do Silício (Estados Unidos) que não queria interromper sua rotina de trabalho para almoçar, o brasileiro Foodz começou a chegar ao mercado em meados de novembro com o mesmo objetivo de seu par norte-americano.

 

Criado pelo francês radicado no Brasil Morgan Dierstein, o Foodz começou a ser idealizado em agosto do ano passado para ser uma refeição completa elaborada com base na tabela nutricional essencial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

 

“Vi lá nos Estados Unidos produtos como o Soylen e percebi que não tinha nada semelhante no Brasil, de coisas sustentáveis diferentes de produtos instantâneos que encontramos nos supermercados. Fizemos uma fórmula em cima do que a Anvisa determina, como carboidratos, vitaminas, proteínas, etc, para ter todos os nutrientes necessários que seriam encontrados em uma refeição”, conta.

 

De lá para cá, a receita da bebida foi sendo desenvolvida por engenheiros de alimentos e nutricionistas contratados pela Foodz para chegar à formula mais nutritiva possível.

 

O Foodz utiliza 16 matérias primas na composição, como semente de girassol, fibra de milho, óleo de coco e suplementos de vitaminas sintéticas que não são obtidas naturalmente. E este é o primeiro ponto da controvérsia segundo o professor Flávio Eduardo Martins, que coordena o MBA de negócios em alimentação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de Porto Alegre.

 

Embora pesquisas internacionais apontem uma preocupação cada vez maior com a origem ambientalmente correta dos alimentos, elas indicam também uma procura crescente por produtos que se dizem mais saudáveis e sustentáveis – mas que, no fim das contas, são muito processados.

 

Pesquisa da Euromonitor aponta que 77% dos entrevistados estão preocupados com o meio ambiente, e 27% deles querem reduzir o consumo de carne, principalmente pela questão ambiental. Embora a consultoria não estratifique os dados por país, Martins explica que o indicador do Brasil foi o mais alto no levantamento.

 

“Isso está muito forte na cabeça do consumidor, principalmente nos mais jovens que são impactados diariamente sobre essas questões socioambientais, da produção da carne no meio ambiente. Também vemos as pessoas identificando a necessidade de uma alimentação mais natural, mais voltada para consumos de alimentos não processados. O problema é que essas soluções são altamente processadas, há uma contradição. O consumidor não faz a conta de que está consumindo um produto altamente processado”, analisa Martins.

 

Saciedade

 

Outra questão diz respeito à capacidade nutritiva do Foodz. Cada porção vem com 112g de 26 vitaminas, minerais e gorduras essenciais e de proteínas, carboidratos, fibras e fitonutrientes concentrados em pó para diluir em 400ml de água.

 

Embora se apresente como um substituto completo de uma refeição, a professora do curso de nutrição da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Cyntia Leinig, afirma que muitos dos nutrientes são oferecidos em uma quantidade muito abaixa do ideal para o consumo humano. E isso afeta diretamente a capacidade de dar uma sensação de saciedade.

 

“Ele tem baixos teores de lisina do girassol, o que é comum às oleaginosas em geral. Por isso sempre recomendamos a combinação de diferentes grãos, como o arroz com feijão, por exemplo. O mesmo vale para a maltodextrina, que eles apresentam como uma boa fonte de carboidratos, o que não é bem assim. Este é um alimento super industrializado, o que não é recomendável pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, mesmo tendo todos os nutrientes necessários. É como se fosse uma suplementação antes ou depois do treino, não é adequado para o uso frequente das pessoas”, explica.

 

Morgan Dierstein reconhece que, por parte da Anvisa, o Foodz é apenas um suplemento alimentar, e que não pode colocar na embalagem que é um substituto à refeição. No entanto, para ele, isso não é um impeditivo para os planos futuros. “Tivemos todo o auxílio de um engenheiro de alimentos e uma nutricionista que ajudaram na parte da tabela nutricional, baixar o carboidrato e fazer a fórmula final de produção para este fim”, diz.

 

Mercado

 

O coordenador do MBA de negócios em alimentação da ESPM de Porto Alegre explica que há sim mercado para todas essas soluções que substituem a proteína animal – e mesmo para essas formas mais “práticas” de se alimentar. Para Flávio Eduardo Martins, é uma realidade da vida moderna, mas depende de como o produto se apresenta ao público.

 

“O sucesso de um produto alimentar está muito iligado à questão dos sentidos, com um bom sabor, um bom aroma, uma boa sensação. Então se esses produtos tiverem um bom impacto no paladar e no odor, ele tem mais sucesso de atender a essa expectativa. É uma tendência, vamos ver cada vez mais produtos assim”, analisa.

 

No caso do Foodz, o composto nutritivo é oferecido em três sabores: tomate com manjericão, chocolate e cappuccino, custando R$ 24,90 cada vendido apenas pela internet. No entanto, Dierstein acredita que, com a entrada de futuros investidores que ele tem ido atrás, a bebida deve em breve ser oferecida no varejo.

 

“Já estamos em negociações com pequenas redes de lojas especializadas, mas depende da capacidade de produção e de logística”, completa sem revelar quanto foi investido no desenvolvimento do produto e no planejamento da própria empresa.

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